ki tisá - o pvo judeu
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Parashat Ki Tisa

A CONTINUIDADE DO POVO JUDEU

- Pai, nos Estados Unidos não é aceitável que um judeu seja diferente dos outros. A roupa que eu estou usando é um terno fino, pois agora eu sou um importante homem de negócios. Deixei minhas roupas tradicionais de lado, pois elas chamavam muito a atenção das pessoas.

Parashat ki tisá
“Moshe Chaim Ginsberg era um judeu ortodoxo que resolveu sair da sua pequena comunidade na Rússia para tentar a sorte nos Estados Unidos. Depois de 5 anos eles voltou para casa, já sem barba, sem Kipá e sem o Tsitsit. Seu pai olhou para ele, assustado, e perguntou:

- Filho, o que aconteceu? Onde está sua barba, sua kipá e seu Tsitsit? E que roupas são estas?

- Pai, nos Estados Unidos não é aceitável que um judeu seja diferente dos outros. A roupa que eu estou usando é um terno fino, pois agora eu sou um importante homem de negócios. Deixei minhas roupas tradicionais de lado, pois elas chamavam muito a atenção das pessoas.

- Mas filho, que nome é este no seu crachá? “John”? Não foi este o nome que eu e sua mãe te demos!

- Eu sei, pai, mas eu precisava de um nome mais americano para me dar bem nos EUA. Imagine que vergonha se as pessoas soubessem que eu me chamava “Moshe Chaim”...

- Espera, filho. Pelo menos você continua comendo comida Kasher?

- Pai, no local onde eu moro a comida Kasher não é facilmente acessível. E eu também não vou deixar de marcar almoços de negócio apenas por causa da comida Kasher...

- Filho, e o Shabat? Não vai me dizer que você não está guardando mais o Shabat...

- Não, pai, eu não estou mais guardando o Shabat – respondeu o filho – pois no Shabat eu tenho muito trabalho para fazer.

O pai, respirando fundo, juntou todas as suas forças e perguntou:

- Filho, ao menos você continua circuncidado???”

Daríamos risada da piada se infelizmente esta não fosse a realidade de muitos judeus ao redor do mundo. Estamos diante da difícil luta do povo judeu para se manter vivo e vencer os atuais movimentos de assimilação. A contribuição de cada um de nós pode fazer muita diferença.

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A Parashá desta semana, Ki Tissá, traz vários assuntos muito diferentes, e cada um deles levanta diversos questionamentos. A Parashá começa com a contagem do povo. Por ser proibido contar os judeus de forma direta, a contagem era feita através da doação de uma moeda de meio shekel por pessoa, e a contagem das moedas indicava quantos judeus havia no deserto. Mas a linguagem utilizada para a contagem, “Ki Tissá”, significa literalmente “quando você levantar”. Qual a relação entre a contagem do povo e o ato de levantar?

Depois disso a Parashá descreve a construção do “Kiór” (Lavatório), um utensílio feito de bronze que ficava no pátio do Mishkan (Templo Móvel), em cujo interior era armazenada água. Através de algumas torneiras que ficavam na parte inferior do Kiór, os Cohanim (sacerdotes) lavavam suas mãos e pés antes de iniciar os serviços do Mishkan. Mas por que a Torá deixou para descrever o Kiór apenas nesta Parashá, se todos os outros utensílios sagrados do Mishkan já haviam sido descritos nas Parashiót anteriores?

A Parashá também descreve os ingredientes para fabricar o óleo utilizado na unção dos Cohanim, do Mishkan e dos seus utensílios. Depois disso estão listadas as especiarias aromáticas utilizadas para fabricar o “Ketoret”, o incenso que era queimado duas vezes por dia no Altar de Ouro do Mishkan. Mas se a própria construção do Altar de Ouro foi descrita na Parashá da semana passada, por que a Torá esperou até esta Parashá para descrever os componentes do Ketoret?

Outro questionamento surge quando observamos as especiarias que compunham o Ketoret. Uma delas era chamada “Chelbená” (Gálbano). Segundo o Talmud (Kritut 6b), esta especiaria tinha um cheiro muito ruim. Deste ingrediente malcheiroso do Ketoret, o Talmud aprende que as comunidades estão obrigadas a incluir os pecadores em suas rezas. Qual o ensinamento que podemos aprender para nossas vidas desta afirmação do Talmud? E qual a ligação entre todos estes assuntos trazidos pela Parashá, que parecem tão desconexos?

Responde o Rav Yochanan Zweig que este censo, a primeira contagem do povo judeu desde a saída do Egito, indica que havíamos atingido o status de uma comunidade. Ser contados como uma comunidade significa que fomos elevados, de indivíduos que necessitam da infraestrutura e do apoio dos outros, a uma unidade autossuficiente com a habilidade de manter sua própria identidade e garantir sua sobrevivência e sua continuidade. É por isso a contagem começa com as palavras “quando você levantar”, pois representou uma elevação e mudança de status do povo.

Os utensílios utilizados no Mishkan eram feitos com os materiais doados pelo povo inteiro, inclusive os outros utensílios feitos de cobre. Mas o Kiór era uma exceção, pois foi inteiramente feito com os espelhos de cobre polido doados exclusivamente pelas mulheres. Porém, o que havia de tão especial para que simples espelhos, usados normalmente para as mulheres se embelezarem, fossem utilizados para fabricar um dos utensílios do Mishkan? A pergunta fica ainda mais forte pelo fato de Moshé não ter aceitado inicialmente esta doação, pois considerava que os espelhos eram objetos utilizados para criar desejo físico e, portanto, inapropriados para serem utilizados em utensílios sagrados. Os espelhos somente foram aceitos quando D’us revelou a Moshé que eles eram sagrados, pois representavam a luta pela sobrevivência do povo judeu. Qual a relação entre os espelhos e a continuidade do povo?

Quando os egípcios infligiam duros sofrimentos aos judeus, durante os terríveis anos de escravidão, os homens chegavam tão cansados em casa que não tinham mais forças nem mesmo para o relacionamento íntimo com suas esposas. Isto colocava em risco as futuras descendências dos judeus. Para garantir a continuidade do povo, as mulheres usavam os espelhos para ficarem mais bonitas e desejadas pelos seus maridos. Enquanto os outros utensílios foram doados por indivíduos, os espelhos foram doados com um senso de comunidade. O Kiór, portanto, representa a importância de preservar a continuidade do povo judeu, e simboliza os esforços requeridos para possibilitar a formação da vida comunitária judaica.

Ao incluir nas especiarias do Ketoret um ingrediente com cheiro ruim, a Torá está nos definindo os requerimentos para uma comunidade. Um grupo de judeus somente pode ser considerado uma comunidade se não há nenhuma parte do povo que está sendo excluída. Como uma comunidade, nós temos a responsabilidade de suprir as necessidades e garantir o bem estar de cada indivíduo. Um grupo somente se torna uma comunidade quando deixamos de ser egoístas, quando passamos a pensar no coletivo com a mesma importância que pensamos no particular.

Enquanto o Kiór representa os aspectos sociológicos de uma comunidade, como a continuidade e a autopreservação, o Ketoret reflete a maneira como os indivíduos de uma comunidade devem se relacionar entre si. É por isso que o Kiór e o Ketoret foram “guardados” para serem escritos na Parashá Ki Tissá, a Parashá na qual o povo judeu se transformou em uma comunidade.

O povo judeu continua, passados mais de três mil anos da construção do Mishkan, em sua luta pela sobrevivência. Passamos atualmente por um momento difícil, no qual nossos jovens cada vez mais se assimilam e abandonam nossas raízes. É obrigação de cada judeu, como parte da comunidade, se preocupar com cada um de seus irmãos em particular, e com a continuidade do povo judeu como um todo. É obrigação de cada um de nós garantir que todos os nossos irmãos possam ter uma vida digna. Somos o povo do Chessed (bondade), o povo da perseverança, o povo que já passou por terríveis perseguições e tentativas de extermínio, mas que sempre soube levantar a cabeça e seguir em frente.

Nossos antepassados fizeram a parte deles, lutaram para que o judaísmo chegasse até nós e venceram. Agora é a hora de cada um de nós fazer a sua parte, para assegurar que o povo judeu, uma verdadeira comunidade, nunca tenha fim.