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MÉRITOS DO PASSADO - PARASHAT TOLDOT

- Veja, meu querido. Como você, eu também tenho uma tatuagem. É para nunca esquecer quem fomos e o longo caminho que tivemos que percorrer para estarmos aqui hoje.

transformar os erros em méritos
"Era véspera de Yom Kipur em Jerusalém. A Mikve estava completamente lotada, pois todos queriam cumprir o costume de imergir na Mikve para se purificar antes do Dia do Julgamento. E entre a multidão havia um jovem que parecia um pouco desconfortável. Era Jamie, um jovem estudante de uma Yeshivá para Baalei Teshuvá (pessoas que vieram de famílias judias não praticantes e se tornaram judeus praticantes). 

Quando Jamie tirou a camiseta, rapidamente colocou a mão sobre o braço, escondendo algo. Era uma enorme tatuagem que ele tinha feito em sua juventude. Após fazer Teshuvá ele aprendeu sobre a gravidade de tatuar o corpo, e por isso raramente mostrava para alguém aquela enorme tatuagem, que um dia tinha exibido com orgulho, mas que agora era uma fonte de vergonha. Com a Mikve lotada, parecia que todos olhavam para ele, mas o que fazer? Ele gostaria de mudar o passado, de nunca ter feito aquela tatuagem, mas naquele momento a única saída era cobrir a tatuagem com a mão e torcer para ninguém perceber.

Quando Jamie se aproximava do local de imersão, ainda cobrindo o braço, algo terrível aconteceu: o chão estava molhado e Jamie escorregou. Para não cair, segurou-se fortemente no corrimão. Todos escutaram o barulho, se viraram na direção de Jamie e se depararam com aquela enorme tatuagem. Passaram alguns poucos segundo, mas o silêncio era tão intenso que para Jamie pareceu uma eternidade. Então Jamie sentiu uma mão em seu ombro. Era um velhinho, que estendeu o braço e mostrou alguns números tatuados. Então o velhinho virou-se para ele e disse:

- Veja, meu querido. Como você, eu também tenho uma tatuagem. É para nunca esquecer quem fomos e o longo caminho que tivemos que percorrer para estarmos aqui hoje.

Com um sorriso, o velhinho ajudou Jamie a se levantar. Jamie já não sentia mais vergonha do seu passado. A partir daquele momento, ele passou a sentir um grande orgulho, ao lembrar-se de onde tinha saído e onde tinha conseguido chegar" (História Real).

Devemos nos arrepender dos nossos erros do passado, mas não nos sentir inferiores por causa disso. Cada dia é uma nova possibilidade de consertar nossos erros e recomeçar. Não podemos reescrever o passado, mas podemos começar, a partir de agora, a escrever um novo futuro.
 
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Na Parashá desta semana, Toldot, a Torá descreve um pouco da vida do nosso segundo patriarca, Yitzchak. É interessante perceber que Yitzchak passou por alguns testes na vida muito parecidos com os testes de seu pai, Avraham. Por exemplo, em seus dias também houve uma grande fome na terra de Israel, que o obrigou a sair de sua casa e a buscar um lugar com melhores condições. Em um primeiro momento Yitzchak pensou em ir ao Egito, como havia feito seu pai, mas D'us apareceu para ele e comandou-o a ir para Guerar, a terra onde viviam os Plishtim. D'us também prometeu para Yitzchak que ele teria muitas Brachót (Bênçãos) e que seus descendentes seriam muito numerosos. E no final das promessas, D'us acrescentou algo interessante: "Pois Avraham escutou a Minha voz" (Bereshit 26:5). O que significam estas palavras? 

O entendimento mais simples deste versículo é que D'us estava explicando a Yitzchak que o mérito de todas aquelas Brachót era de Avraham, por ele ter servido a D'us de uma forma tão leal e completa, passando com louvor por todos os testes que surgiram durante sua vida. 

Mas além desta explicação, há um entendimento mais profundo das palavras deste versículo. Explica o Rav Avraham ben David, o Raavad, que a linguagem utilizada no versículo, "Ekev", que significa "Pois", tem a guemátria (valor numérico das letras) de 172. O que isto nos ensina? Que dos 175 anos da vida de Avraham, 172 deles foram vividos de acordo com a vontade de D'us. Isto significa que desde o dia em que Avraham foi desmamado, aos 3 anos de idade, ele seguiu o caminho de D'us.

Porém, há uma dificuldade nesta explicação do Raavad. Diz o Rambam (Maimônides) que Avraham só chegou à consciência de que existe um único Criador, que controla todas as forças do universo, com a idade de 40 anos. Segundo o Rambam, até esta idade Avraham ainda servia deuses idólatras. Somente depois de 40 anos é que ele começou a pregar ao mundo o monoteísmo, reunindo milhares de seguidores. Portanto, como entendemos a explicação do Rambam, se o valor numérico da palavra "Ekev" aparentemente ensina que Avraham serviu a D'us desde os 3 anos de idade?

Além disso, o Raavad faz outro questionamento interessante. Na época de Avraham, ainda estavam vivos alguns dos descendentes de Noach (Noé), como seu filho Shem e seu tataraneto Ever. Eles eram Tzadikim (Justos), acreditavam em um único Criador e mantinham uma academia de estudos das leis de D'us. Por que em nenhum momento a Torá menciona que Shem e Ever também protestavam contra a idolatria e pregavam o monoteísmo, como fazia Avraham?

Explica o Rav Yohanan Zweig que a resposta começa com uma afirmação muito interessante dos nossos sábios. Ensina o Talmud (Sanhedrin 99a) que um Baal Teshuvá, uma pessoa que se arrependeu de seus erros e passou a viver da maneira como D'us ensinou, tem um nível maior do que alguém que sempre foi Tzadik. Para fazer esta afirmação, o Talmud se baseia no seguinte versículo: "Shalom, Shalom, para o distante e para o próximo" (Yeshaia 57:19). Isto significa que D'us se refere primeiro àqueles que estavam distantes Dele, os Baalei Teshuvá, antes mesmo de se referir àqueles que sempre estiveram próximos Dele, os Tzadikim.

Mas deste ensinamento surge uma grande pergunta: por que a Torá chama um Baal Teshuvá de "distante"? Se o Baal Teshuvá tem um nível maior do que o Tzadik, por que ele é tratado de uma maneira aparentemente depreciativa, sendo recordado na Torá como alguém que foi distante de D'us no passado? Não seria melhor se referir ao Baal Teshuvá como alguém que atualmente está perto de D'us, como o Tzadik?

A resposta é que o Talmud não está depreciando os Baalei Teshuvá, ao contrário, está nos ensinando qual é a fonte da grandeza deles, que os eleva acima dos Tzadikim. O fato de eles terem sido distantes de D'us é justamente o que faz com que eles se aproximem Dele de uma maneira muito mais intensa. Isto se relaciona com um fenômeno interessante, que nos ensina algo profundo na psicologia do ser humano. Quem são os maiores ativistas antitabagismo? Os ex-fumantes. E existem dois principais motivos para isso. Em primeiro lugar, por já terem sido viciados, os ex-fumantes precisam constantemente lutar contra a tentação de voltar ao vício. E o ativismo contra o tabagismo dos outros é um mecanismo natural de proteção, pois pessoas em volta fumando são uma tentação constante. E em segundo lugar, justamente por saberem os malefícios do cigarro e terem sentido na própria pele todos os danos que ele causa, os ex-fumantes aderem a várias campanhas para ajudar outras pessoas a também saírem do vício. E eles têm a grande vantagem de saber o quanto foi difícil abandonar o vício, por isso desenvolvem uma sensibilidade maior de como lidar com o problema e podem ensinar aos outros a fórmula do sucesso.

Isto se aplica também aos Baalei Teshuvá. Por sua vontade de abandonar os caminhos errados, qualquer transgressão se torna uma grande abominação. Eles querem se afastar o máximo possível dos erros do passado, e com isso conseguem se elevar ainda mais do que os Tzadikim. Além disso, pelos Baalei Teshuvá terem passado por toda a dificuldade de mudar seu estilo de vida, eles têm a sensibilidade de entender aqueles que ainda não conhecem o caminho correto, sendo mais fácil ajudá-los a também conseguir mudar.

Com este conceito, podemos entender porque a Torá relata somente o esforço de Avraham para propagar o monoteísmo. Shem e Ever eram Tzadikim desde o nascimento, sempre viveram com a convicção de que existe apenas um único D'us e que as idolatrias eram uma grande tolice. Eles não entendiam o que significava ser um idólatra e não conseguiam entender o coração das pessoas que seguiam as idolatrias, por isso não conseguiam ajudá-las. Já Avraham, que também havia adorado as idolatrias, entendia o coração das pessoas e conseguia convencê-las e ajudá-las a abandonar os caminhos errados. O fato de ter sido distante de D'us foi justamente o que fez Avraham chegar a um nível espiritual tão alto e poder ajudar tantas pessoas. 

E como entender a contradição dos ensinamentos do Rambam com a linguagem "Ekev" do versículo? A resposta é que Avraham foi um Baal Teshuvá. Durante muitos anos ele fez idolatria, mas ao descobrir a verdade, ele se afastou com todas as forças do modo de vida equivocado em que esteve imerso por tantos anos. Portanto, a Torá não está dizendo que Avraham serviu a D'us desde os 3 anos de idade, pois ele ainda fazia idolatria até os 40 anos. O que a Torá está nos ensinando é que Avraham serviu a D'us por 172 anos, pois no momento em que ele buscou a verdade e encontrou-a, ele abandonou todas as idolatrias e dedicou sua vida a viver a verdade e a trazer outras pessoas também. Neste momento, todos os seus erros foram transformados em Mitzvót, pois foram utilizados como ferramentas para ter sensibilidade e poder ajudar a aproximar as pessoas de D'us, como ensina o Talmud (Yomá 86a): "Os pecados de rebeldia são transformados em méritos". Com a força da Teshuvá, suas transgressões do passado ajudaram-no a ter força de vontade para crescer e para tocar o coração das pessoas e ajudá-las a entender a verdade.

Isto também se aplica às nossas vidas. Muitas vezes olhamos para trás e nos arrependemos dos erros que fizemos. Muitas vezes sentimos que erramos tanto que não há mais conserto. Mas de Avraham aprendemos até onde chega a bondade de D'us. Não apenas nossos erros podem ser apagados, mas podem ser transformados em Mitzvót. Não apenas podemos nos afastar das transgressões, mas também podemos ajudar outros a se afastarem. Avraham começou com 40 anos. Rabi Akiva, que se tornou um dos maiores sábios da Torá de todos os tempos, também começou seu caminho de Teshuvá aos 40 anos. Nunca é tarde para começar. Podemos utilizar nossos erros e nossas experiências passadas de maneira positiva, ajudando aqueles que estão na mesma situação na qual estávamos. Assim poderemos, como Avraham, transformar nossos erros em mérito e nos tornar uma fonte de Brachá para o mundo inteiro.

SHABAT SHALOM

R' Efraim Birbojm