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O Mundo da Teshuvah

Saber separar a essência da pessoa das suas ideias.

Neste capítulo do livro ''Uma família, duas idéias'', disponibilizamos um trecho onde o autor aborda alguns pontos para sabermos diferenciar a essência da pessoa das suas idéias.

08.08.17 | 20:50
Saber separar a essência da pessoa das suas ideias.
Mesmo que no plano racional consigamos avançar muito na resolução de conflitos, é necessário também tentar trabalhar, no plano emocional, a redução dos sentimentos negativos sobre o outro. Como isto é possível?
Falar, saber escutar, pensar nos próprios erros são, sem duvida, grandes remédios para sentimentos de rancor e ódio. Mas, fora isso, existe outra reflexão a se fazer muito ponderada na literatura judaica:
É muito importante saber separar as ideias de uma pessoa da sua essência. Por mais que não concordemos com suas ideias, devemos continuar amando-a como pessoa.
 
Muitas vezes, cometemos o erro de odiar alguém por não concordar com alguns aspectos dessa pessoa. Talvez não gostemos da sua aparência, do jeito como se veste. Até aí é fácil perceber que se trata de um erro, afinal de contas, quase todo mundo concorda que não devemos julgar ninguém por seu aspecto exterior. Mas podemos ir mais além nessa reflexão pois, do mesmo jeito que a aparência física e as roupas são aspectos superficiais em relação ao que uma pessoa sente, pensa ou age, a maneira como a pessoa age ou pensa também é um aspecto superficial em relação a outros aspectos, como seus sentimentos para com o próximo, sua fidelidade em relação aos amigos, ou mais que isso, a essência mais profunda da pessoa, a sua condição de ser humano criado à imagem de D'us. Em outras palavras, assim como é incoerente odiar alguém por seus aspectos mais superficiais, por sua aparência física, também é um erro odiá-la por não concordar com a maneira como ela age e pelo que ela acredita ou deixa de acreditar.
 
 Mais que isso, muitas vezes odiamos uma pessoa por inteiro por não concordarmos com um aspecto dela apenas, uma opinião dela apenas, ou apenas um comportamento.  Por exemplo, alguém não concorda com a maneira como seus pais se relacionam com seus filhos (netos desses pais). Não se relacionar bem com os netos, ser bravo demais com eles ou mimá-los demais com certeza é grave. Mas será que é suficiente para condenar a pessoa por completo? Será que essa pessoa não tem outras qualidades em sua vida? Neste exemplo, o filho não deveria odiar os pais simplesmente por eles cometerem um erro, mesmo que grave. Ele deveria separar o atributo errado da essência dos pais; seres humanos criados à imagem de D'us e, a partir daí, refletir sobre todos os outros aspectos dos seus pais encontrando, com certeza, muitos pontos positivos. Não existe nada que justifique odiar uma pessoa; podemos condenar suas atitudes, mas nunca odiar a pessoa em si. 
 
Existe um ensinamento, no PirkeiAvot, o livro que trata dos assuntos de boa convivência entre os homens, que faz distinção entre dois tipos de discussão: a boa discussão, e a má discussão. O texto exemplifica essa diferença com dois exemplos: O exemplo positivo é a discussão entre a escola de Shamai e a escola de Hillel. Em grande parte das leis judaicas, as duas correntes entram em desacordo. O exemplo negativo trata da discussão sobre Korach, primo de Moisés, e sua congregação, que se rebelaram contra a legitimidade da liderança de Moises, Qual a diferença? Por que alguns tipos de discussão são positivos e outros negativos?
 
Para começar a responder, precisamos saber qual discussão específica o PirkeiAvot usa como exemplo para as questões da escola de Shamai e a de Hillel. Trata-se de certo tipo de casamento que Shamai considera como válido e Hillel considera como proibido Segundo Shamai, os filhos desse casamento seriam filhos legítimos, enquanto que para Hillel, eles seriam filhos de uma relação proibida, ou seja, bastardos. Como sabemos, um filho bastardo só pode casar-se com outro bastardo. O incrível é que o Talmud continua e diz: “Mesmo assim, os alunos de Hillel nunca deixaram de casar as suas filhas com os alunos de Shamai. Ou seja, mesmo discordando na forma de aplicação da lei, a fraternidade e o amor entre as duas escolas nunca diminuíram. E reparem que Hillel tinha um bom motivo para proibir esse tipo de casamento pois, segundo sua opinião, haveria muitos bastardos na escola de Shamai, já que eles permitiam casamentos que Hillel proibia. Era melhor, portanto, investir numa tremenda dificuldade para averiguar a origem da família do pretendido noivo, a proibir esse tipo de casamento e gerar uma suspeita de falta de amor entre as duas correntes. Isto é a discussão positiva: ideias diferentes, porém com afeição e amor inabaláveis. E isso só é possível se soubermos separar a ideia da pessoa que possui esta ideia. Posso não gostar da sua opinião, do fato de ela ser religiosa de mais ou de menos, mas da pessoa vou continuar gostando do mesmo jeito. No caso de Korach, foi diferente; a discussão dele com Moisés acabou sendo levada para o âmbito pessoal, e ele acabou por não mais amá-lo. Portanto, só existe uma maneira de garantir que a discussão seja do tipo positivo: quando a pessoa que está opinando está em busca, puramente, de uma verdade intelectual, e não na busca de algum interesse pessoal em seus argumentos.

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